O IDOSO ATIVO E O TRABALHO DE CUIDAR DE SI

É responsabilidade do idoso ativo cuidar da própria saúde de maneira a estender sua vida saudável pelo maior tempo possível, evitando assim a posição de ônus para a família e a sociedade.
O cuidado de si está relacionado à manutenção da autonomia e da independência implicadas em diferentes esferas de negociação que definem a experiência do envelhecimento:

A autonomia tem relação com a liberdade, já que o flagrante de uma fragilidade por parte dos filhos pode colocar o idoso ativos sob administração.
• A autonomia diz respeito à manutenção da posição de bônus para a sociedade em contraposição à posição de ônus demandante de recursos da família e do estado e passível de descarte.
• A autonomia diz respeito à manutenção da identidade de idoso ativo junto aos pares e no mecanismo de classificação social que define, entre os participantes da pesquisa, quem é um “velho legal” e quem é um “velho velho”.
• A autonomia diz respeito à manutenção da disposição do corpo para se empregar em atividades que sirvam de provas de que os idosos ativos estão ocupados e produtivos. Essa produtividade é também lastro para a manutenção da identidade do cidadão de São Paulo, onde trabalho é associado a caráter.

Os participantes da pesquisa não temem a morte, mas a dependência

O empenho no cuidado de si entre os participantes da pesquisa tem relação direta com a falta de expectativa de que os filhos cuidarão deles na velhice. Como eles definem, “os tempos são outros” pormenorizando a quebra do contrato intergeracional de cuidados entre a família. Por conta disso, vão se empregar em diferentes esforços a fim de manterem sua autonomia.

O corpo como objeto de trabalho

• As atividades físicas ganham prioridade e são tratadas como obrigações. É comum que expressões como “missão cumprida” e “estou liberado” sejam usadas após o término da atividade. A atividade também contribui para a sociabilidade desses idosos e novas oportunidades são compartilhadas por eles nos grupos de WhatsApp.
• Há a interiorização de culpa entre aqueles que ainda não aderiram às atividades físicas e há também dificuldade em aceitar os declínios do corpo e em abandonar as performances da juventude.

Lembro, logo existo

• Uma das grandes preocupações entre os participantes da pesquisa diz respeito à manutenção cognitiva com muitos deles tendo vivenciado a experiência de Alzheimer ou demência entre familiares.
• Toda atividade de aprendizado é vista como um ganho duplo: ao mesmo tempo em que aprendem algo novo, exercitam a memória. Os cursos de idiomas são o melhor exemplo disto e podem ser complementados pelo uso do aplicativo Duolingo, uma febre entre os idosos.
• Os joguinhos agora instalados nos smartphones também atuam nos exercícios diários visando a manutenção cognitiva.
• Com relação à memória, os smartphones apresentam um paradoxo. Ao mesmo tempo que são vistos como aliados, como “segundo cérebro” para o qual esses idosos terceirizam algumas funções mentais, eles tornam redundantes algumas habilidades das quais esses idosos se orgulhavam. O Waze por exemplo tornou redundante a capacidade de um dos participantes da pesquisa de se lembrar de cabeça todas as ruas e trajetos de São Paulo.

Somos o que comemos

• É comum que os participantes da pesquisa reproduzam o discurso de que as pessoas são aquilo que elas comem. Ao fazê-lo, eles associam a qualidade da dieta alimentar à qualidade de vida almejada na velhice. Essa associação é reforçada pela convocação para a adoção de hábitos alimentares saudáveis que circula em diferentes esferas, da medicina à religião, estando difundida também no WhatsApp e em outros canais como Youtube e Netflix.
• A alimentação é o campo em que os participantes da pesquisa demonstram maior protagonismo, buscando orientações na esfera online que nem por isso invalidam a proposição de que há manutenção da deferência à autoridade médica entre eles. Por isso, suas fontes de informação são “médicos da internet” e também amigos e amigos de amigos que trabalham na área da saúde.
• Há destaque para o papel que a alimentação assume no tratamento do câncer, cuja causa é frequentemente atribuída a fatores emocionais.
• Apesar de, no discurso, mostrarem-se verdadeiros especialistas sobre o papel da alimentação no envelhecimento saudável, esse discurso nem sempre se concretiza na adoção de hábitos saudáveis. Os smartphones contribuem para esse paradoxo. Ao mesmo tempo que os participantes podem dar visibilidade a conteúdos e registros que atestam sua adesão a uma alimentação saudável, eles podem manter no privado os consumos desviantes ou “irresponsáveis” que reforçam a Terceira Idade como fase de prazeres e permissões. Como um dos participantes resumiu: “velho come feijoada mas tira foto de gelatina”.

Administrando mágoas e tristezas

• Os participantes da pesquisa compartilham a crença de que a ocorrência de certas doenças é o resultado de alguma tristeza ou trauma sofrido no passado ou mesmo de alguma pendência afetiva.
• Por um motivo ou por outro, esses idosos estão sensibilizados para a necessidade de administrar essas emoções negativas como uma tática preventiva para evitar o surgimento de doenças na velhice. Entre elas, o câncer é a condição mais associada por eles ao emocional.
• O Ho’ponopono, por exemplo, é uma das ferramentas de autoajuda mais populares entre os participantes da pesquisa no papel preventivo de doenças que eles associam a tristezas e mágoas.
• Como tática a longo prazo para administração de tristezas, mágoas e ansiedade, os destaques são os grupos de meditação dirigidos à Terceira Idade, com periodicidade de uma a duas vezes por semana e ministrados por voluntários.
• A meditação responde justamente a dois anseios: de não se deixar capturar pelo que passou, nem por aquilo que está por vir. Por isso, essa prática é conduzida de maneira a auxiliar os idosos a manterem a mente no momento exato em que estão. Neste sentido, manter-se presente é ao mesmo tempo a meta e o benefício da meditação, que pode ser associada com a demanda por resiliência, na qual o idoso recupera o equilíbrio e a disposição para continuar em atividade, mesmo em situações adversas (ROWE; KAHN, 1997).

CONTINUE A TRIPLA JORNADA DO PROTAGONISTA

Para um melhor entendimento da experiência dos participantes da pesquisa na Tripla Jornada do Protagonista, sugiro a leitura na ordem abaixo. Clique e acesse diretamente o conteúdo.

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Ao se engajarem em atividades relacionadas ao aprendizado de habilidades direcionadas ao empreendedorismo, ao autocuidado ou ao voluntariado, os participantes da pesquisa marcam um território e tratam de expandi-lo, dando visibilidade à velhice – seja na ocupação de espaços na cidade ou no compartilhamento de conteúdos em redes sociais e no WhatsApp, que provam essa disposição e competência para a produtividade. Ao fazê-lo, eles desafiam os limites impostos pela idade e essa é a grande reinvenção partilhada pelos participantes da pesquisa.
No link a seguir, você acessa o texto sobre a dinâmica entre idosos ativistas e idosos ocupantes e como eles desafiam o sistema de permissões da velhice em São Paulo.